Fragmentação pós-moderna e a ascensão da extrema direita
Mais do que o crédito do Banco Central Europeu (BCE), a imigração é
o principal fator de diminuição do valor trabalho na criação de novo
valor criado [1] na recente década, segundo o economista Michael
Roberts. Olhemos um exemplo, o da quarta maior economia europeia.
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A
população espanhola passou de menos de 40 milhões em 1999 para 47
milhões em 2010 [2]. a maior parte deste salto, um dos mais
espetaculares no continente europeu, é resultado de migrações de
Equador, Bolívia, Marrocos, etc. [3] Na Alemanha residem hoje 1,5 milhão
de turcos com nacionalidade turca, que foram para o país em seis vagas
de migrações desde 1961 [4]. Isso não inclui nem a imigração temporária –
determinante depois de 2000 – nem as gerações já naturalizadas [5].
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A imigração é de fato uma das grandes fraturas que divide a sociedade
europeia, e não só – o tema ocupou um do lugares-chave na eleição de
Donald Trump para presidente dos EUA. A sociedade divide-se
transversalmente quanto a este tema. Não é difícil encontrar um liberal
que defende a imigração como “direito humano”. Nem um operário que
esteja contra. Se a extrema-direita eleitoral questiona os migrantes, os
partidos liberais são entusiastas da livre circulação – ainda que não
da sua legalização. O tema atravessa, de forma não homogênea, as classes
sociais.
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Argumentamos aqui que a razão é sobretudo de ordem política – a
ausência de partidos fortes que representem interesses ligados às
classes trabalhadoras deixou-as reféns de dois tipos de políticas
nacionalistas.
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A complexidade de atitudes diante das migrações tem sido
mediada sobretudo por duas visões, em suma: a racista/proibicionista
(setor de extrema-direita) e a defesa da livre circulação de força de
trabalho (partidos liberais e conservadores e social-democratas) e dos
direitos humanos (partidos social-democratas). Não existe, a este
respeito, uma política internacionalista com influência real nas
sociedades europeias hoje.
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O real impacto das migrações na vida dos povos (de onde saem e qual o
impacto nos países de onde vêm) e na dos países onde chegam tem sido
ignorado. Fala-se do direito a ir. Nunca do direito a ficar. Isto é, do
direito a dispor dos seus recursos, ser força de trabalho – e viver – no
seu país.
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O direito histórico à autodeterminação dos povos disporem dos seus
recursos e meios de sobrevivência – que celebra-se no fim da I Guerra
Mundial [6] – é hoje marginal nos discursos das lideranças europeias. A
razão fundamental é que a iniciativa da defesa das migrações parte das
classes dirigentes europeias, para contrariar a elevação salarial, pela
escassez previsível da força de trabalho.
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São, portanto, razões mais simples do que as propaladas divisões de
pele, etnias, credos religiosos, que, existindo (e existem), têm sido
ampliados pelos media e a indústria cultural, a reboque de políticas de
regulação da flexibilização e/ou queda do preço da força de trabalho.
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Têm como força intelectual a esquerda pós moderna que sobrepõe a
fragmentação identitária às classes [7], mesmo quando todos os trabalhos
empíricos que têm como objeto estudos da competição salarial demonstram
que os trabalhadores não são racistas com outros trabalhadores que não
se apresentam como concorrentes diretos.
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Ou seja, um quadro intelectual
de uma empresa pode vir de qualquer país estrangeiro para a Europa que
por norma é bem recebido – o racismo surge se e quando há concorrência
salarial, portanto perda do controle dos fatores de trabalho.
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Recordemos o trabalho de Dick Geary, que sustentou também que o
machismo nas fábricas no século XIX estava intimamente ligado ao fato de
as mulheres entrarem no mercado de trabalho ganhando menos [8], sendo
portanto um concorrente direto e que a mesma hostilidade por parte dos
operários era destinada a todos aqueles, mulheres, crianças, outros
operários homens, que ganhassem menos.
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Isto quando não havia
organizações sindicais internacionalistas – como o caso bem sucedido dos
Wobblies nos EUA – que combatiam esta concorrência colocando em prática
– e não só em palavras – formas de luta solidárias que levavam à
elevação do salário para todos.
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A imigração está relacionada com um fator objetivo – o valor da massa
salarial e a segurança no emprego. As políticas de “apelo à tolerância”
mantendo a concorrência salarial, o dumping, conduzem os trabalhadores
organizados à desmoralização ou ao apoio a partidos de extrema-direita,
porque o fator objetivo mantém-se.
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Numa sociedade mercantilizada – em
que a própria força de trabalho é ela mesmo uma mercadoria, em
concorrência entre si -, os trabalhadores concorrem no setor, concorrem
no mercado nacional, e concorrem no mercado internacional, para vender a
sua força de trabalho. Ora, as políticas migratórias do lado dos
Estados europeus têm respondido prioritariamente à gestão da força de
trabalho e não em primeiro lugar – nem principalmente – a causas
humanitárias ou de inspiração multicultural.
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Sem laços de solidariedade
efetivos – como cotização para greve dos que ganham mais em favor dos
que ganham menos, como fizeram em Portugal os estivadores, mantendo
ambos a greve até fixar todos os salários no valor dos que ganham melhor
– , o racismo terá base social onde progredir. Porque o sentido de
justiça dos trabalhadores diz-lhes que a trabalho igual deve ser pago
com salário igual.
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Não podemos deixar que a extrema-direita usufrua do
beco sem saída oferecido pela “livre circulação”. Ao nacionalismo
xenófobo deve contrapor-se a organização internacionalista, não a livre
circulação liberal que na verdade de livre só tem a venda pelo preço
mais baixo da força de trabalho, alternada com o desespero do
desemprego.
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Raquel Varela é colunista do Esquerda Online, historiadora,
investigadora e professora universitária. Especialista em história
global do trabalho e história das revoluções.
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NOTAS
[1] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[2] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[3] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147.
[4] Referindo as migrações pós 1945, a Turquia tinha, enquanto Império Otomano já uma história de migrações para territórios germânicos.
[5] Yasar Aidyn, The Germany-Torkey Migration Corridor, The Transatlantic Policy Migration, Migration Policy Institute, 2016, p. 4.
[6] Robert O. Paxton, Europe in the Twenthith Century, Orlando, Harcourt Publisher, 1975, p. 171
[7] Ellen Meiksins Wood, The Retreat of the Intellectuals, Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/…/ellen-meiksins-wood-gramsci-s…/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018.
[8] Dick Geary, European Labour. Politics From 1900 to the Depression, New Jersey, Atlantic Highlands, 1991.
[1] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[2] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[3] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147.
[4] Referindo as migrações pós 1945, a Turquia tinha, enquanto Império Otomano já uma história de migrações para territórios germânicos.
[5] Yasar Aidyn, The Germany-Torkey Migration Corridor, The Transatlantic Policy Migration, Migration Policy Institute, 2016, p. 4.
[6] Robert O. Paxton, Europe in the Twenthith Century, Orlando, Harcourt Publisher, 1975, p. 171
[7] Ellen Meiksins Wood, The Retreat of the Intellectuals, Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/…/ellen-meiksins-wood-gramsci-s…/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018.
[8] Dick Geary, European Labour. Politics From 1900 to the Depression, New Jersey, Atlantic Highlands, 1991.

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