Por António Bagão Félix
«Basta um singelo ábaco para contabilizar o carrossel.
Ou, tecnocraticamente, a placa giratória. São sempre os mesmos. Ou quase.
Notáveis, competentíssimos, indispensáveis. Economistas engenheirados ou
vice-versa, financeiros de tecnologia de ponta, juristas alcandorados a
gestores MBA, fiscalistas em regime offshore, egrégios sociólogos
armados em tudólogos, diplomatas em fim de carreira e reformados pró-activos e
sobretudo pró-influentes.
Os lugares são multifuncionais e, como agora sói
dizer-se, customizados. Quer dizer, às vezes não são as pessoas para os cargos,
antes são os cargos para as pessoas. Há de tudo, e sobretudo, com a
plasticidade que convém aos curricula, à idade, ao estatuto, à proveniência
partidária, à loja maçónica ou a outras referências das chamadas elites. Há os
cargos sempre apetecíveis porque seguramente não executivos, ou seja, fazendo
pouco, exibindo credenciais e, acima de tudo, recebendo uma prebenda bem
aconchegada. É escolher entre presidente não executivo, administrador não
executivo, presidente ou vogal (mas sempre consonante) de um qualquer
denominado conselho geral, de supervisão, de auditoria, de vencimentos, de
reestruturação, etc. Há depois a figura de presidente ou membro de uma boa
assembleia-geral de accionistas supostamente tranquila e meramente formal, mas
que dá uns trocos indexados a qualquer coisa, menos ao salário mínimo ou ao
Indexante de Apoios Sociais. Por fim, há os sempre apetecíveis Conselhos
Fiscais, onde pouco se fiscaliza que, para isso, há sempre o “operário” de
serviço, o Revisor Oficial de Contas.
O universo também está bem delineado. Em primeiro
lugar, as empresas ex-públicas, pois que algumas privatizações foram bem
orientadas por “pequenos núcleos” entre o caderno da privatização e a “nova
gestão”, e tanto melhor quando são monopólios ou fortes oligopólios de bens ou
serviços para a comunidade pagadora. Depois, toda a parafernália de empresas
(e, evidentemente, das suas holding e sub-holding)
que têm de ter boa representação em certos corredores do poder e dos poderes.
Há ainda e cada vez mais as que beneficiam do capital de contactos e relações
com economias em desenvolvimento, onde é importante tratar a cleptocracia e a
corrupção com bajulação e “sentido de Estado”.
Entre os ungidos do sistema nacional de elevadas
competências, há vários grupos: os que a quem nunca se ouviu uma opinião
frontal e corajosa sobre qualquer minudente assunto, os que passam o dia num
notável equilíbrio entre os pingos da chuva, os que vão a tudo e a todos,
proclamando tautologias com ar de sábio, os “talvezeiros” que são uma espécie
de especialistas condicionais, os que sabem de tudo, desde mecatrónica a bitcoins e
desde redes virtuais a rotas aéreas, os bem-falantes em inglês ainda que
mal-falantes em português, os repatriados depois de tudo absorverem na
xenofilia sempre sedutora, os que são “flexíveis” e têm dado provas de saber
(sabiamente) mudar de opinião ou de acção, os que jamais levantarão qualquer
problema incomodativo numa nova versão de “múmias paralíticas” no domínio da
gestão, os que ascendem ao clube do estrelato vindo directamente de doutas
sociedades de advogados e jurisconsultos, os ex-jotas encartados depois de
cargos governativos. Há ainda os “papa cargos” em regime de colecção e dom de
ubiquidade e os administradores independentes, raramente independentes
administradores, mas que o convidante e o convidado fingem acreditar no
reclamado estatuto de independência.
Administram tudo e não deixam nada. Bendita Pátria que
de tais competências dispõe!»
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