Quem se mete com o PS
3/2/2018, 0:00993
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Não
espanta que o dr. Costa achasse o episódio do dr. Centeno “ridículo”, como não
espanta a inquietação dos avençados do regime, a começar pelos que sobrevivem
no futuro semanário Diário de Notícias.
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Por
falta de informação e de interesse, não comento a trapalhada judicial que
envolve o presidente de um clube da bola, um membro do prestigiado clã Rangel e
célebres personalidades de que nunca ouvi falar. Prefiro comentar as ligações
que, pelo menos durante uns dias, ligaram de forma tangencial o dr. Centeno à
trapalhada, e o escândalo que isso suscitou.
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Eis
os factos: o dr. Centeno pediu ao Benfica bilhetes de futebol para ele e para o
filho. Eis as suspeitas: o favor seria uma gratificação por favores recíprocos
e ilícitos. O Ministério Público abriu um inquérito que, entretanto, fechou.
Mas pelo meio, de archotes ao alto, irromperam multidões ofendidas com uma
Justiça tão iníqua que chega a desconfiar de um homem digno. De passagem,
convém lembrar que o homem digno é o mesmo que levou um cachecol da selecção
nacional para uma reunião em Bruxelas, que mantém relações políticas e pessoais
com gente seríssima e que, à vaga aproximação de uma maçada, costuma mentir o
necessário para escapar airosamente. Perante isto, as reacções não espantam.
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Não
espanta, desde logo, que o dr. Costa achasse o episódio “ridículo” e jurasse
que “em circunstância alguma” o dr. Centeno sairia do governo. Somos assim
informados de que, ainda que o dr. Centeno ceda a um amigalhaço o controlo do
território marítimo português ou atropele deliberada e comprovadamente três
velhinhas, o emprego dele está garantido. O PS não pactua com a precariedade
laboral.
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Não
espanta a inquietação dos avençados do regime, a começar pelos que sobrevivem
no futuro semanário “Diário de Notícias”. Mas, como é habitual em democratas,
existiram divergências de fundo. Uns acharam que colocar a simples
possibilidade de o dr. Centeno vender a honra por um par de lugares no camarote
da Luz mostra que a Justiça é “burra”. Outros garantiram que a Justiça é
“estúpida”. Na televisão onde disserta, o interessante comentador José Miguel
Júdice intitulou o caso “uma estupidez sem nome”.
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E
não espanta a fúria do PS, que lançou sobre a investigação todos as maldições acima
e mais algumas. Não espanta a aflição do actual “PSD”, que se aliou ao PS, ao
PCP e ao BE e mandou Paulo Rangel à Europa certificar-se de que a “imagem” do
país e do ministro não arriscavam abalos. Não espanta a revolta dos peritos, os
estudiosos da bola que desfilam em programas da especialidade e que correram a
chamar coisas feias aos que, em péssima hora, ousaram duvidar da verticalidade
do dr. Centeno. Por fim, não espanta o desassossego dos benfiquistas fiéis,
embora aqui menos por amor às Finanças do que ao clube.
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Na
verdade, nada espanta. Por falta de provas ou de substância, o processo em
questão morreu depressa. Se não tivesse morrido, o gemido dos defensores
oficiosos do dr. Centeno haveria de prolongar-se por semanas ou meses ou o
tempo suficiente para que a PGR caísse em mãos amigas. Não é de hoje que os
socialistas gozam de vasta impunidade, e que cada beliscão a tão honestas almas
constitui uma “cabala” destinada a punir o Bem. Hoje sucede apenas que a
capacidade de farejar “cabalas” é maior, e que a capacidade de as demolir “a
priori” é omnipotente. Pé ante pé, a impunidade tende para o absoluto. Aos
poucos, Joana Marques Vidal e respectivos colaboradores tornam-se corpos
estranhos neste regime de sentido e pensamento únicos. A lei da natureza prevê
que, cedo ou tarde, sejam expurgados. E a lei que restar não será habitável.
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1. Pelos vistos, não bastava um governo que, em prol da nossa
saúde, proíbe ou condiciona dois terços da cadeia alimentar. Também a oposição
está empenhada em ajudar-nos a escolher aquilo que comemos, contanto que aquilo
que comemos não seja escolha nossa. “Oposição”, no contexto, é força de
expressão. Falo do senhor do PAN, que assinou na “Sábado” uma crónica a
decretar o leite – segurem-se bem – “um dos maiores embustes do século XX”.
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O
senhor do PAN, que não faz as coisas por menos, podia optar pela denúncia do
comunismo. Ou dos nacionalismos. Ou dos concertos de beneficência. Ou dos
partidos criados para entreter maluquinhos. Mas não: o alvo do senhor do PAN é
o leite. Porquê? Porque, se percebi correctamente, as vaquinhas, à semelhança
das estrelas de Hollywood, são vítimas de violação ou assim. Há, porém, a
hipótese de eu não ter percebido nada, já que o senhor do PAN faz jus à
identificação com os bichos e escreve pouco melhor do que a minha cadela
Falcatrua. Em qualquer dos casos, fica decidido que, cito, “um cidadão
informado não bebe leite”. Se, depois do aviso, você beber tamanha mistela,
você é um imbecil, um patego e o único animal de que o PAN não gosta.
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Para
não dar a impressão de que o senhor do PAN só se excita com proibições, admito
que, há quinze dias, a criatura rabiscara um texto a defender a liberalização
da canábis – para fins medicinais, que como se sabe é o principal objectivo do
“pothead” médio. Ou seja, se trocarmos o cappuccino pela erva, a probabilidade
de ficarmos iguais ao senhor do PAN aumenta exponencialmente. Sei de muita
gente que vai rever prioridades – e investir na Agros.
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2. Como é próprio das crianças imitar as celebridades do
cinema e da televisão, não admira que, aos poucos, os portugueses comecem a
confessar o assédio sexual de que foram alvo. Esta semana, três ou quatro
figuras públicas que não conheço ou conheço mal, tocaram corajosamente no
assunto (embora, sempre corajosamente, não referissem nomes). Aproveito o
embalo para confessar que cresci em Matosinhos, onde, ao tempo da minha
adolescência, as empregadas das inúmeras conserveiras ocupavam a pausa de
almoço com piropos indecentíssimos aos rapazes que passavam. Até os mais suaves
avanços são irreproduzíveis aqui. Basta dizer que sofri muito, e que sinto um
enorme alívio ao partilhar o sofrimento. Também gostava de ver outras vítimas
saírem à rua a denunciar as pervertidas em causa. Mas as fábricas fecharam há
anos e na rua já as pervertidas estão. À cautela, proteste-se em casa. #MeToo,
meus caros. #MeToo.

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