Thursday, November 12, 2009

TIMOR - MEMÓRIAS DOS TEMPOS IDOS QUE O CORRER DO TEMPO NÃO APAGA...

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Uma tarde, no mês de Novembro de 1991, entrou pela porta da chancelaria da Embaixada de Portugal, em Banguecoque, um jovem de grande estatura, dirigiu-se a mim e solicitou-me pretender falar com o Embaixador. Era nem mais nem menos o jornalista Mas Stahl que tinha filmado o “Massacre do Cemitério de Santa Cruz”, em Díli (Timor) no dia 12.
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O jornalista vinha pedir ao Embaixador Castello-Branco para que com o remetente, da embaixada, fosse enviada a uma peça dirigida ao Miguel Sousa Tavares, para ser publicada na revista “Grande Reportagem”. Max Stahl bem razões tinha de pedir a ajuda, dado que suspeitava ser perseguido pela polícia secreta indonésia.
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O jornalista, logo após o “massacre” fez sair de Timor a cassete com o filme (missão que lhe poderia custar a morte), que viria a dar a conhecer ao mundo, democrático, as mais terríveis cenas. Depois de dada autorização pelo Embaixador Castello-Branco, preparei todo o material que meti num envelope, telefonei à empresa do correio rápido para que mandasse um tarefeiro à embaixada recolhe-lo.
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Como correspondente, em Banguecoque, da “Tribuna de Macau” tinha todo o interesse que me concedesse uma entrevista e assim dar a conhecer à população portuguesa, residente em Macau, o que na realidade tinha acontecido no dia 12 de Novembro, em Dili, o que viria a sensibilizá-la e, não só, o Governador Rocha Vieira a suportar a causa até à independência.
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Não me foi fácil obter a entrevista ao Max Stahl, isto porque tinha o compromisso com a revista “Grande Reportagem” e não o desejava quebrar. Porém depois da minha promessa informando-o que a sua entrevista só seria publicada depois de ter saído em Lisboa. Entretanto a notícia sairia no mesmo dia (7 de Dezembro de 1991) na “Tribuna de Macau” e na “Grande Reportagem”, com a diferença de tempo em 8 horas.
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O arrojado jornalista, seguia, praticamente, escondido e hospedado no hotel “Tower Inn” (Silom Road). Depois do assunto do envelope arrumado, levei-o para minha casa onde jantou comigo.
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Em seguida coloquei-lhe um gravador à sua frente, cuja cassete com fotografias enviei no dia seguinte para Macau. Não vou aqui transcrever a entrevista na totalidade, mas apenas o editorial do director da “Tribuna de Macau” José Rocha Dinis.
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“Max Stahl, entrevistado em Banguecoque pela «Tribuna»
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De repente, os portugueses esqueceram partidos, diferenºas sociais e zangas familiares, e ficaram boquiabertos pela crueldade das imagens que, vindas do outro lado do mundo, passaram nos televisores de suas casas; o próprio Presidente Mário Soares não teve vergonha de confessar a sua emoção de ver aquelas cenas de jovens timorenses a rezarem em português, antes de serem brutalmente atacados pelos soldados da Indonésia.
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Por detrás de uma moderna câmara de vídeo, um homem de pouco mais de trinta anos, britânico de nacionalidade, mas muito agarrado à cultura latina que conheceu e amou, na fase da infância e adolescência – Max Stahl.
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Max Stahl, um nome até agora quase nada referido, apesar de as suas imagens terem corrido mundo. Afinal, enquanto outros jornalistas/testemunhas apenas tinham as escoriações para mostrarem que também tinham sido atacados pelos soldados indonésios.
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Max tinha duas cassetes com imagens, que são o testemunho real da crueldade das forças que desde há 16 anos ocupam, com a cumplicidade internacional, a que outrora foi a mais longínqua colónia portuguesa.
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Detido e interrogado durante nove horas, o jornalista britânico da “Yorkshire Television”, foi um profissional. “Fintou” as forças de ocupação de Timor, incluindo, os “bufos” que, segundo o seu próprio relato, se encontram por todo o lado, e só emergiu depois das suas imagens estarem a bom recato e serem divulgadas em todo o mundo.
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Em Banguecoque, onde esteve de passagem, concedeu uma longa entrevista ao nosso correspondente José Martins, onde faz o relato dramático da situação que se tem vivido em Timor, desde o incidente de Motael, onde foi assassinado o jovem Sebastião Rangel, causa próxima do massacre no cemitério de Santa Cruz.
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Para o gravador, falou em espanhol, proporcionando-nos, não um artigo trabalhado, reflectido, mas um documento emocionado por aquilo que viu, contudo, sem perder de vista, as componentes políticas locais, regionais e internacionais, de que Timor é uma “peça” até agora considerada menor, em termos das grandes estratégias.
É um documento excepcional, e por várias razões.
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Já em Setembro, Max Stahl estivera em Timor e tomara contacto com a situação de repressão em que se encontra o Povo Maubere. Voltou em Novembro, esteve nas montanhas com as reduzidas forças da Resistência Armada, e conheceu os jovens que estiveram envolvidos em Motael e Santa Cruz, alguns dos quais foram agora assassinados pelas balas indonésias.
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Profundo conhecedor da cena política internacional, não tem dúvidas em assinalar a imensa hipocresia dos países mais poderosos, nomeadamente a Austrália, no seu relacionamento com a Indonésia.
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Mas é também um documento excepcional, porque este jornalista britânico que acaba de publicar uma reportagem no “The Independent” de Londres, e hoje mesmo verá o seu relato publicado em Lisboa, pela revista “Grande Reportagem”, dirigida por Miguel Sousa Tavares, teve a amabilidade de conceder esta entrevista, em exclusivo, para a “Tribuna de Macau”, um jornal português de Macau de que apreciou alguns números.
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Não será a última vez, por certo, que vamos ouvir falar de Max Stahl.
As fotos e “slides” vendidas pela “Yorkshire” à “Grande Reportagem” ( que o nosso correspondente viu demoradamente) vão ter tanto impacto em Portugal, como as imagens que passaram em Portugal.
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Daí José Martins faça a sugestão, que integralmente apoiamos, de que o Governo Português lhe prestaria justiça, agradecendo-lhe, de qualquer forma, a coragem e determinação com que contribuiu para que a situação do Povo de Timor, tivesse finalmente chegado à cena política internacional.
Comprovando que, na verdade, muitas vezes, uma imagem vale mais que mil palavras... J.R.D.
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P.S. - Nunca mais deixei de seguir o caso de Timor até à sua independência e coleccionando, recortes de jornais do publicado, fotografias do que se foi passando em Banguecoque.
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Na minha biblioteca, particular, estão 5 grossos volumes, fruto de um trabalho e dedicação à causa, que oferecerei ao Governo de Timor Leste, em altura própria. São documentos históricas que servirão, para estudo, das novas gerações.
José Martins

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