Wednesday, April 22, 2009

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - A OUTRA FACE DA DIPLOMACIA

Parte 33
Jardim de Portugal - Ilha de Riqueza

Introdução: Como na parte anterior ainda não será nesta que entrará o "Jardim de Portugal-Ilha de Riqueza". Cada vez mais, que vou escrevendo, outras memórias me vão aflorando à cabeça que são a da história da passagem de um "Manga de Alpaca" nos "meandros da diplomacia".
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Nestes departamentos do Estado Português, muito coisa estranha acontece.
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Os favores, o tráfico de influências, a mentira o "zingaro-jogos" e a pouca lealdade para com os superiores na Secretaria de Estado dos Estrangeiros.
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A preservação dos interesses de quem as gere está acima dos do Estado e mais, ainda, aquilo que irei narrando através de outras partes.
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Evidentemente que será preciso ter coragem descrever aquilo que um ex-"manga de alpaca", que sou eu, trazer verdades a público de actos de uma classe que poucos sabem das suas actividades.
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Se outro, igual a mim o fizesse bem saberia que poderia sofrer as consequências de meter-se com uma diplomacia, arcaica, fedorenta, nepótica, indolente e dorminhoca.
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Estou à vontade para tudo o que for necessário aos 74 anos e três mêses.
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Embaixador Tadeu Soares depois de ter enviado para Secretaria de Estado o telegrama 83 de 30 de Abril de 1999, quatro dias depois de assumir a gerência, a dar conta das desgraças, inventadas na residência dos chefes de missão, a partir desta data e durante o final de sua comissão de serviço nunca mais as obras vão terminar na chancelaria, residência e no jardim.
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Tadeu Soares vinha premeditado para as obras que me deixavam certas dúvidas se nas obras não haveria interesses camuflados. Não havia contenção alguma no esbanjamento de dinheiros públicos, quer fosse mandar para o lixo e substituir por novo mobiliário, máquinas de escrever, antigas outro material que pertencia ao espólio da missão e que deveria ser guardado e exposto num pequeno museu, localmente, onde há muito lugar para ser instalado.
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Mas vamos continuar no projecto das obras. Tadeu Soares nunca me pediu, algo que fosse em cima da residência, do jardim, da chancelaria dado que era eu, desde 1984, o responsável pela manutenção do edifício e orientação de dois humildes trabalhadores, permanentes, já vindos do consulado do embaixador Mello Gouveia, que tudo reparavam desde os telefones da missão, à construção de muros e mesmo cortar a relva do Jardim.
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Comecei então a entender que não seria, eu, a pessoa que Tadeu Soares pretendia estar junto a ele e continuar a gerir o cuidado da manutenção da missão.
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Seria necessário colocar-me aparte de tudo e outro rumo fosse levado a cabo à sua maneira e com pessoal novo.
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Não sei se já teria lido a infamante carta escrita pelo embaixador Castello-Branco e guardada no cofre que viria contribuir para que eu fosse dado como um “filho da mãe” dentro da embaixada de Portugal de Banguecoque.
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No dia 10 de Maio de 1999, 14 dias depois de sua chegada a Banguecoque, envia dois telegramas para a Secretaria de Estado com os números 89 e 90.
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Tadeu Soares transmite a peregrinação que efectuou às habitações do pessoal da missão onde viviam 3 criados, 1 guarda, 1 motorista, 1 jardineiro, 1 continuo e a empregada de limpeza (pessoal que mandou, logo a seguir para o “olho da rua” sem justa causa!).
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Tadeu Soares bem a seu jeito, que ainda não lho conhecia, informa que estão profundamente degradadas, chovendo em todas as divisões, com remendos nas paredes, tecto que dão ao conjunto um ar de “bairro de lata”. É penoso, diz ainda, ver e embaraçoso que empregados Estado português estejam alojados tais condições.
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E Tadeu Soares, um autêntico almocreve das desgraças e um falso humanista muito preocupado com a penúria das degradadas habitações do pessoal, quando pouco depois manda-os para a rua, quando alguns com muitos anos de casa sem nunca se lhes ter apontado nada em desabono.
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Mas ainda no telegrama 89 vem à “baila” o problema de escoamento das águas , os charcos que se formavam, depois de alguns minutos de chuva. Ora o escoamento das águas estava absolutamente controlado e bombagem automática, inventada por mim em 1984, embora rudimentar, funcionou perfeitamente, durante 15 anos, com o custo de um montante ridículo.
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Termina Tadeu Soares o telegrama: “Embora não se trate de trabalhos dispendiosos, julgo que esta área não pode ser negligenciada quando forem feitos trabalhos restauro e consolidação edifícios da Residência e Chancelaria”.
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Como se pode avaliar e já o afirmei na parte anterior, a esta, sem ainda conhecer os cantos da casa; sem nunca me perguntar nada sobre nada da missão Tadeu Soares quer obras, obras e mais obras. Chegava-me a interrogar: “mas porque raio de razão este embaixador quer obras se tudo está em condições razoáveis?”
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Mas este desejo de obras e mais obras será para explicar no seguimento desta em outras partes...
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Era evidente que Tadeu Soares não me desejava a mim e a todos os outros funcionários de anos na embaixada para trabalhar à vontade e fazer as suas “manigâncias” a seu prazer e ter o pessoal novo, admitido por ele absolutamente controlado, sem poder “dar ao bico”.
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Bem é que Tadeu Soares ameaçou-me que me despedia por duas vezes, usou a resistência, maldosa e pacífica, para comigo que me colocou muitas vezes a dactilografar telegramas até às 10 da noite.
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Era uma tortura trabalhar com este homem, porque além de fazer telegramas, que mandava para a CIFRA, de um cozinhado dos recortes dos jornais diários, depois de eu os dactilografar, emendava-os (alguns, mais de meia dúzia de vezes), que chegava ao ponto de entrar em “órbita”.
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Num telegrama contei-lhe a mesma palavra 16 vezes e num parágrafo 3 que o chamei à atenção para o rectificar. Às 7 da manhã estava na embaixada a recolher o expediente que chegava de Lisboa, preparava-o para lho entregar na sua mesa; depois dactilografar telegramas, ofícios até depois as 7, 8, 9 e 10 da noite era para “estourar” comigo, psicológicamente, que acabei de ir parar ao hospital num noite e ficar internado dois dias pelo desumano tratamento de um diplomata de uma “ruindade” incrível!
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Por duas vezes ameaçou-me que me despedia da embaixada dentro do seu gabinete, já tarde e de quando apenas os dois sós. Peremptoriamente e já um pouco fora de mim (porque a paciência tem limites) perguntei-lhe se o que me acabava de dizer era uma ameaça... Cobardemente calou-se e foi melhor ter procedido assim.
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Voltando aos telegramas dos empreendimentos a seguir ao telegrama 90 dactilografou outro onde dá conta de um pouco da história da doação do terreno, cujas informações, parte delas, fui eu que lhas forneci, dá o elogio patriótico aos portugueses de quando fizeram parte da guarda ao palácio real (sec. XVI) na antiga capital do Sião em Ayuthaya.
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Informa do estilo, colonial, da residência dos embaixadores e que esta, lamentavelmente, os últimos grandes trabalhos e, mesmo a pintura interior foram feitos tempo do Embaixador Mello Gouveia (1982-87) .
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Informa dos problemas que o edifício se tem vindo afundar lentamente, inclinação dos soalhos, portas, janelas; a infiltração das águas do rio, do muro de protecção junto à margem do rio Chão Pryá, etc,etc,etc.
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Tudo no modo de ver de Tadeu Soares está numa autêntica miséria. Num parágrafo deste telegrama (passado 14 dias de Tadeu chegar a Banguecoque):
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Proposta: Consideradas hipóteses possíveis para estudo problema (serviços públicos tailandeses, portugueses ou de Macau), julgo mais razoável recorrer serviços obras públicas e hidráulicas Macau e, caso não receba instruções em contrário, proponho-me solicitar a Governador Macau envio um ou dois engenheiros aqueles Serviços fim de proceder levantamento topográfico terreno e propor soluções visando deter afundamento casa e infiltração rio. Não julgo que tal estudo implique encargos para essa Secretaria de Estado.”
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O conteúdo acima traz muita água no bico e parte de uma, forte, ligação de amizade que pouco depois de chegar a Banguecoque encetou
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Depois de o Alípio Monteiro ter sido admitido como funcionário contratado a termo certo, há outra personagem, Nuno Mota Veiga que viria a infiltra-se na embaixada, dado como vice-cônsul e nomeado (!!!) por Tadeu Soares.
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Ainda no consulado do embaixador Mesquita de Brito, aparecia de quando em quando a rondar a chancelaria, carregando ao ombro uma máquina fotográfica. A primeira pessoa a quem o Veiga se teria apresentado, foi ao Dr.Jorge Morbey, Conselheiro Cultural da embaixada e, pouco depois fez-me sua apresentação.
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Nunca foi apresentado ao embaixador Mesquita de Brito e até lhe passou despercebido rondar a embaixada. Fez várias visitas a Banguecoque, ainda com o Mesquita de Brito e já se sabia que este embaixador iria deixar a missão e o novo seria Tadeu Soares. -
Longe estaria eu de imaginar que o Veiga se estava a preparar para entrar ao serviço da embaixada e, segundo fontes (que aqui não vou revelar), estava bem apadrinhado pelo embaixador António Monteiro, na altura Representante no Conselho Económico e Social das Nações Unidas e onde Tadeu Soares, antes de vir para Banguecoque (1999), esteve em comissão de serviço.
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Esperava e já de colocação certa o arquitecto (que nunca provou a licenciatura com o documento), Nuno Mota Veiga a chegada de Tadeu Soares. O Dr. Jorge Morbey pouco sabe de suas origens e não mais fez, como o faria a outro português, recebê-lo bem.
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Porém mais tarde teria-lhe dito que deveria seguir a profissão de arquitecto e não uma carreira burocrática ligado a uma secção consular. Mas como poderia seguir a carreira, se um amigo, meu, de Macau me informou que era um fraco “designer”?
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O certo que foi, embora a recepção encoberta, o Veiga foi recebido de braços abertos pelo Tadeu Soares, levou-o para a Residência dos embaixadores, viveram juntos, por cerca de ano comeram na mesma mesa, partilharam viagens ao estrangeiro, unha e carne os dois nas recepções, diplomáticas, contínuas e protocolares na capital tailandesa.
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Umas vezes Tadeu Soares dava-o como o meu cônsul e outras o meu secretário. Passado um ano ou porque aquela amizade, tão próxima, teria sido reparada, acabou o Veiga para se mudar para um apartamente, junto à Rama III road, a uma meia-dúzia de quilómetros da embaixada.
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Como nota curiosa e aqui designo, o Alípio Monteiro tinha sido condiscípulo de um irmão de Tadeu Soares, de quando jovens, no Colégio dos Carvalhos, nos arredores do Porto.
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Estava com isto o embaixador Tadeu Soares com os seus homens de confiança e que viriam, estas duas personagens, a mudar o rumo da embaixada e o curso da minha vida de 15 anos, de permanência, nessa data.
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Surge então na embaixada a intriga, o despedimento, colectivo, de pessoal e o meu inferno quotidiano naquela casa que nunca tal coisa haja acontecido antes.
José Martins
Continua

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